domingo, 23 de dezembro de 2012

ENTRE O SIM E O NÃO






(De uma anotação do "Diário",
de Giovanni Pappini)



"Todo pensamento,
depois de expresso,
torna-se mentira",
disse um poeta russo 
amigo de Tolstoi.
NÃO ! Todo pensamento 
depois de expresso 
é a mais pura verdade. 




(Olinda, fevereiro / 2005)

sábado, 17 de novembro de 2012

O ESSENCIAL NECESSÁRIO





Não escrevo versos por saber escrever 
Por ter aprendido na escola o ABC
Por rimar, para desabafar, para espantar 
A solidão, elevar a minha voz sobre os outros,
Manifestar dor amor desamor 
Ou para brilhar a inteligência e proclamar ideias. 
Escrevo versos porque a prosa é pouca,
Mínima e insuficiente para pronunciar 
Palavras que não são só pronunciadas pela boca,
Nem escritas pelos gestos 
Pela prestidigitação das mãos 
E sim dinamitadas do âmago do coração.        




(Jardim Atlântico, Olinda  / janeiro 2005)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

IMAGEM E SEMELHANÇA DOS HOMENS





São tão poucos os poetas no mundo !
É muito pequena a densidade demográfica da poesia nas cidades !
Quanto habitamos por quilômetro quadrado ?
Somos Amazônias de distâncias e silêncios.   


Para todo ser humano, para cada cidadão 
O direito sagrado ao pão ao vinho ao salário digno 
Ao amparo da casa e à companhia da Poesia, 
Um poeta como seu duplo, seu outro eu :
Um poeta no mundo para cada habitante recenseado 
- Uma humanidade solidamente construída.


Vejam as ruas das cidades 
sítios campos desertos
De gente desamparada e de espaços sem gente 
E a falta que a Poesia faz para cada um 
Como se Deus lhes faltasse também.  
Procurem os poetas com refletores de laser à luz do dia, 
Eles não estão escondidos e exilados em livros e bibliotecas,
Não nasceram ainda, não se multiplicam na face da Terra 
Como uma explosão genética saudável e necessária 
Para harmonizar cada homem e cada mulher 
Iluminação atomizada parindo a Vida 
Na indescoberta pedra preciosa de um poema 
Com os pedaços do céu do ar do mar e da terra 
E a fecundante semente cereal de cada palavra.   



(Jardim Atlântico, Olinda /
janeiro de 2005)
 

domingo, 30 de setembro de 2012

O DONO DO MUNDO





O dono do mundo era Deus.
Mas ele não era republicano,
Não tinha nascido no Texas, 
Não havia falido empresas do pai
E pequenas petrolíferas americanas.
Não era um péssimo homem de negócios 
E um político medíocre,
Sem sensibilidade com os homens 
E sem caráter.
Também não mentia ao Congresso,
Não inventava armas e inimigos da Democracia 
E tiranias e vilanias 
E artefatos nucleares para destruição em massa 
Plantados nos quintais dos vizinhos. 
Deus não odiava o Oriente 
Como um campo de manobras 
Dos Estados Unidos da América Assassina. 
Deus não tinha sede de petróleo e de dinheiro 
Nem fabricava milhões de armas por segundo 
Para implodir Governos Onus e a Terra. 
Deus não era vesgo,
Caubói canastrão e duas vezes presidente 
Para manobrar e mandar jovens a uma Guerra Interminável
Sacanear o povo iludido 
E destruir com um toque de mídia o próprio País. 


"Deus salve a América",
Reza falsamente George W. Bush.
E quem salvará Deus 
Da sanha desumana de Bush,
Louvado superdolarizado e auto-proclamado 
O Dono do Mundo ?



(Olinda, janeiro de 2005)

sábado, 18 de agosto de 2012

NOITES VAZIAS, DIAS DE PROMESSA




Quando junto de mim vivias 
As melhores horas dos meus dias
Eram as noites calorosas voluptuosas.
Passavam e eram uma eternidade.
Hoje, tão distante estás, 
Falo contigo e não te vejo,
Estou contigo e não te sinto 
Presente carnal vivo desejo,
Quero só que as noites vazias
 Passem depressa 
E os dias sejam a inadiável promessa 
De que logo chegarás.    



Olinda, janeiro / 2005.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A FABRICAÇÃO DA PAZ




"O mundo precisa fabricar é Paz !"
       (DOM HELDER CAMARA )



Sim, Presidentes do Terceiro Mundo
(sem Primeiro e sem Segundo)
a nossa guerra é contra a Fome.
Vamos acabar para sempre,
no Brasil pacífico que amamos,
com a maldita fabricação de armas 
industrializadas febrilmente 
para alimentar guerras
em todos os cantos do Planeta.
E, Presidentes do Terceiro Mundo,
do Quarto, do Quinto e de quantos mundos 
mais pobres existirem,
vamos converter todas as armas em arados, 
como sonhava na África Desmond Tutu.
E vamos converter balas em sementes
e planos militares em programas alimentares 
e bombas atômicas em explosões de vidas 
e desarmar todos os soldados e homens 
e transubstanciá-los em poetas,
que, nus e desarmados,
constroem, todos os dias,
A Grande Árvore da Paz.



(Palmares, dezembro / 2004)

domingo, 3 de junho de 2012

CONVERSA COM JOSÉ TERRA NO PÁTIO DE SÃO PEDRO




Para mim
metáfora
é o mesmo que meter fora.
A palavra é fogo
é foda mesmo
não é "meta fora".
A palavra é verso
que a gente mete dentro
bem dentro
do corpo da poesia.



Recife, 28/novembro/2004. 

terça-feira, 8 de maio de 2012

ILUMINATA (Canção de Paulo Diniz)




"m'ilumino
     di imenso"
(UNGARETTI)



Me amanhece
Ó luz do meu dia

Alegra a vida 
Mais doce Maria 

Calor da carne 
Na carne tão minha 

Nunca é tarde
Teu corpo me aninha 

Não anoitece 
No céu da poesia

Me ilumina 
Imensa Luminha 




(Olinda, setembro, 2004)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

MONÓLOGO A DOIS




Sim, não diga não.
Não diga não nunca jamais.
Deixe a minha mão errante 
Chegue entre passeie adiante 
Deslize pela tua pele nua
Descubra pousos em tuas reentrâncias 
A carne pronta macia veludosa 
Doce dádiva tua entrega sem disfarce 
Sem recusa acidente qualquer errância 
Sem susto na noite nunca distante 
Deixe que os meus toques anunciem
E descubram nossos corpos amantes 
Sem nenhuma palavra temerosa
Sem nenhuma palavra a mais ou a menos.
Não, não diga nada, meu amor. 



(Palmares, 2004)

quinta-feira, 15 de março de 2012

ISLA NEGRA DE NERUDA





És mais do que geografia do Chile
Residência da poesia da pátria panamericana
História oceânica de mundos sem fim
Dicionário das palavras de Deus 
Feito homem para ser Deus de novo, Isla Negra :
Voz mais humana de todos os cantos da Terra 
Contemplação do Pacífico andinando-se para os céus
Síntese da América e todos os seus elementos 
Parte essencial do continente do coração de Neruda.   




(Palmares, agosto 2004)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

AUTO-RETRATO EM 3 TEMPOS (Sinais particulares...)



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Sinais particulares :
poemas sem corpo e sem título,
doidice e uma maldita lucidez, 
uma terra, a dos poetas - Palmares,
uma mulher - América,
canção proibida - Amar Recife,
a cidade atravessada na garganta, 
coração portátil alegre indignado e ferido,
um Nordeste em carne & osso,
poesia viva das cidades brasileiras, 
palavras sempre mais humanas, 
um milênio de setembros 
e futuros perfeitos.
Todas as inumeráveis páginas que escrevo
são só um único poema 
ou mesmo um único verso.
Eu sou cada palavra que você lê guarda preserva desdenha ou destrói
e morro quando você não abre o livro
e vivo quando você me pronuncia.    


(Palmares, julho / 2004) 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

AUTO-RETRATO EM 3 TEMPOS ("Feições limpas pele clara carne viva")




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Feições limpas pele clara carne viva 
de uma beleza única incompreensível
e nunca vista 
como a de todo poeta 
- porque ninguém mergulha dentro de mim.  
Poeta desde que me descobri  homem 
com Destino certo entregue à Poesia,
sem precisar de arautos autorizações e atestados críticos
ou qualquer formação na escola dos outros. 
Aprendi na vida sem me enganar
 e porque sou poeta 
sei antes de ler e escrevo sem saber o que escreverei. 
Tenho no coração provinciano a grandeza de São Paulo
e pela metrópole do meu cérebro acordado 24 horas por dia 
sonho a cada segundo uma única cidade humana. 
Escrevo porque é preciso escrever
porque os homens precisam que os poetas escrevam 
e lhes dêem notícias deste mundo e de outros mundos que eles não conhecem,
escrevo porque o meu coração se abre a todo instante 
para falar em voz alta sem medo 
negando o Silêncio a Solidão a Morte. 
Verbo em vida me inscrevo
com a nudez humilde dos que nascem
e o despojamento corporal dos que morrem. 
Escrevo sanguíneo rio-mar vertigem sem parar 
no turbilhão de mim mesmo 
encarnado em cada verso canção poema 
com uma eternidade em meio século de idade. 


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(Palmares, julho/2004)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

AUTO-RETRATO EM 3 TEMPOS





Sou o que sou, minhas palavras.
Além disso, referencio Palmares 
- cidade perdida no cu do mundo,
um Pernambuco quase sem terra no mapa,
brasileiro Brasil hino sem estribilho
bandeira ao vento sem ordem e progresso. 
Fiho de pai alagoano e mãe pernambucana
ele de pouca leitura ela analfabeta
- almas sensíveis encontradas na Mata do Una,
como os avós paternos bichos alagoanos caboclos mundaús
e os avós maternos índia e branco do mesmo barro. 
Filho mais velho
em companhia de um irmão e mais quatro irmãs 
e pai de dois filhos e de uma filha 
já criados nus como nasceram. 
De estatura massa corporal suficiente 
para viagens terrestres e extra-viagens 
além dos limites do próprio corpo
alma-espírito em sintonia com o universo. 

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(Palmares, julho/2004)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

UM AZTECA




A América nasceu do meu sangue 
E vive do meu sacrifício.
Lâminas e armas-de-fogo
Não destruiram meus ancestrais
E o milho frutifica o sol
Sobre as edificações do meu coração.
Meu pensamento perpetua o meu povo :
A terra é o que são os seus homens.  



América do Sul, julho / 2004.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

POÉTICOS BAIRROS




As cidades são um corpo repartido
Cidadelas povoações estelares 
Um luminoso grande corpo unido. 
As cidades são bairros próximos 
Identificada pessoa coletiva 
Em cada canto vivido. 
Mais do que uma selva 
Que deslumbra o homem 
A cidade o próprio homem habita.  
E os bairros 
Partes líricas do inteiro corpo amado
São a própria poesia do nome revelado :
Ilha do Recife, Boa Vista, Santo Amaro,
Santo Antonio, São José, Derby, Soledade, Ilha do Leite,
Madalena, Aflitos, Graças, Parnamirim, Casa Forte,
Apipucos, Casa Amarela, Afogados, Arruda, Cajueiro, Barro,
 Jardim Atlântico, Casa Caiada, Rio Doce,
Carmo, Amparo, Sé, Bultrins, Ouro Preto,
Bairro Novo, Alto do Lenhador, Pedreiras,
Santa Luzia, Santa Rosa, Nova Palmares, Baixa da Égua,
Belenzinho, Brás, República, Luz, Campos Elíseos,
Consolação, Bela Vista, Aclimação, Ipiranga, Perdizes, 
Penha, Lapa, Itaquera, Vila Sabrina, Jardim Guançã,
Utinga, Vila Alpina, Vila Palmares, Parque das Nações,
No Recife, em Olinda, Palmares, São Paulo, Santo André,
Os bairros brilham nomes próprios  líricos definidos
Tão identificados com a história e a geografia do lugar,
Melhor do que números frios e antipoéticos números
Apenas CEP, catálogo, código insensível
Sem pronúncia viva e humana expressão.     


Palmares, junho / 2004.