quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A MÁRCIA ARTE

não quero mais ler
quero ler-te
pronunciar-te
rabiscar
escrevinhar
com a minha língua
teu nome
linguar-te
lamber-te
eme a erre cê i a
Márcia
macia carne
corpo tenroso
terrena tela
para pintar-te
como eu pinto
meu pau aceso
encaralhar-te
escrevendo em fogo
dentro de ti
o meu e o teu nome
para sempre
me fazendo eterno
e tua eternidade



(Palmares, maio / 2002)

domingo, 7 de novembro de 2010

RIO UNA (PALMARES)

da janela do hotel
vejo o rio
Una Una negro negro
refletindo verdes
terras canaviais montes


o rio se move
e as águas parecem paradas
passantes ? errantes ?
a água é terra líquida
e o céu não tem
no sol da tarde
o mesmo brilho do seu leito


o rio não passa
não vai a lugar nenhum
o rio fixa-se no corpo da cidade
como um colar
enfeitado pelo seu colo
cobra coleando os limites urbanos
além do tempo
além da vida


(Palmares, 12/maio/2002)

domingo, 17 de outubro de 2010

O MEU AMOR

"... mais doces do que o mel
e o destilar dos favos."
(SALMOS, cap.19,vers.10)




O que há mais doce do que o mel ?
O gozo do meu amor.
Mais tenro do que o pão ?
A carne do meu amor.
Mais límpido do que o céu ?
A alma do meu amor.
Mais delicado do que a flor ?
O corpo do meu amor.
Mais luminoso do que o sol ?
O rosto do meu amor.
Mais puro do que o fogo ?
O coração do meu amor.
Maior do que o Amor ?
O meu amor.



(Palmares, janeiro / 2002)

domingo, 10 de outubro de 2010

MEL E SEIVA

Como gosta o teu corpo
Da minha boca
Do meu beijo mais profundo
De ser meu


Como gosta o meu corpo
Da tua boca
Do teu beijo mais profundo
De ser teu



(Palmares, outubro/2001)

sábado, 25 de setembro de 2010

A VIDA NÃO É VÍDEO

No dia 11 de setembro,
em Barreirinha, Amazonas,
o poeta Thiago de Mello
acendia a manhã
com um novo poema
cheio de gente e de esperança.
E, no Recife, em Casa Forte,
o poeta Jaci Bezerra
almoçaria mais cedo
para beber liricamente
com novos versos burilados
à mesa de um bar
um cantar d'amigo.
Num ônibus de Rio Doce,
sacolejando até o centro do Recife,
o maestro Ademir Araújo
sonhava mais um arranjo alegre
para uma composição de Capiba.
E, na ladeira de São Francisco,
em Olinda de São Salvador
o pintor João Câmara
tinha acabado de eternizar um gesto
num trágico mágico sobre a tela.
A Vida, em todos os cantos,
prenunciava a Primavera
florando nos corações
há mais de 2 mil setembros.
Em cada casa rua praça
de qualquer cidade da América,
- pequena, obscura ou habitada demais
como as suas capitais
e metrópoles rurbanas -
a Vida era uma manhã simples,
clara e luminosa
em seu cotidiano de luz.


De repente,
no meio do dia,
se fez noite em Manhattan.
Em Manhattan unicamente,
precisamente no Centro de Negócios do Mundo,
erguido com porrilhões de dólares,
desabou o Dia,
como uma alucinação de Nova Iorque inteira,
como se um artefato atômico
fosse jogado por um sociopata qualquer
de um prédio vizinho.


E, de repente,
o mundo inteiro não mais seria o mesmo
com o atentado da Guerra
do Presidente Bush
em defesa do seu País
(e da Paz do Mundo, como ele,
cáuboi da última decadência, falou).
O Dia inteiro desabou,
de casa a dentro de todos os mortais do Planeta,
como um raio de sol a mais,
um facho de luz inesperado
explodindo na sala,
brilho intenso na tela da TV,
mais espetacular do que uma tragédia hollywoodiana,
mais atraente do que qualquer comercial
ou sexo de toque digital.
Transmitada em dores,
instantânea, a imagem do terror
repetida à exaustão
dizia, a ponto de todos dizerem,
estupefatos e estupidificados,
presos à explosiva notícia,
não quero mais Te Ver !
não quero mais TV !


O Terror pertencia a Nova Iorque,
mais precisamente a Manhattan,
unicamente à Ilha da Solidão e do Dinheiro !
Em nossas casas,
em qualquer cidade da América,
era setembro, quente e primaveril,
havia poesia, música e cores do Dia
na vida que a gente vivia.
NÃO NO VÍDEO.



(Palmares, 27/11/2001).

sábado, 18 de setembro de 2010

A NOSSA CIDADE

Nenhuma cidade
é mais bela
do que a nossa.
Sabes por que ?
É nela que descobrimos a beleza.

Existem as sombras, as carências, as negações,
as extensas frustrações
e a insensibilidade dos nossos irmãos.
Mas é na cidade onde nascemos
que descobrimos o encanto de uma rua,
a magia de um beco,
a explosão de uma praça,
a necessidade de um vizinho,
a pobreza do universo de alguém
(na própria família),
a alegria intraduzível das crianças
e a primeira emoção do amor.

Na nossa cidade, mesmo que ela nos ignore,
sabemos que a humanidade existe
e que somos parte essencial dela.

O mundo ?
O mundo nasce na nossa cidade.


(Palmares,julho,2001).

sábado, 4 de setembro de 2010

BOCA PINTADA NÃO DIZ NADA

Vou apagar a tua boca,
Disse o poeta, com raiva
Do batom vermelho da Avon
E de todas as fábricas de cosméticos
Que alteravam a beleza natural
Da sua mulher.
Queria a sua boca
Clara, límpida, nua pele macia
Sexo desenhado no rosto alvo
De vermelho apenas o sangue
Aflorado nos lábios
Anunciando a língua em fogo
E suas promessas de prazer.



Palmares, junho, 2001.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

NOVA GÊNESE

com toques sensíveis
em teus seios cheios
o mundo do teu corpo
estremece em dádiva
nas minhas mãos.
e eu quero mais :
como um deus
que reinventa a criação
quero - nova cosmogênese -
a plenitude do universo
do teu coração
expandido para dentro
do meu coração.



Palmares, maio/2001.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

ARTE DO AMOR

"os corpos se entendem,
as almas não."
(MANUEL BANDEIRA)




Deixa que o teu corpo
Se entenda com o meu corpo,
Eles se entendem muito bem.
É que antes as nossas almas
Já se entenderam também.



Palmares, 7/abril/2001.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

ALMA BRASILEIRA

para a poetisa luso-brasileira
Maria de Lourdes Hortas




Que alma tens
Que chora saudade
À mesa ?
- Branca portuguesa.


Que alma és
Que gritas rubra
E te ufanas
Da pobre nobreza ?
- Negra africana.


Que alma
Vive em ti,
Ainda, humana ?
- Índia americana.



(Palmares, março, 2001)

domingo, 22 de agosto de 2010

AO NASCIMENTO DO SÉCULO 21 E DO TERCEIRO MILÊNIO

Somos os pais criadores
e a juventude que tudo renova
do futuro de um Tempo melhor.
Criamos com as nossas mãos imperfeitas
o que nenhuma geração criou
nas Terras e nos Céus.
Com a nossa limitada humanidade
criamos o que a memória do Homem não registra
e todos os Deuses invejam :
criamos com o Amor
das nossas vidas finitas
o Amanhã e a Eternidade.