segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

AMANHECER NO JARDIM ATLÂNTICO





Amanhece no Jardim Atlântico
Um horizonte recortado de edifícios
Figuras geométricas qusse iguais
Engaiolando gentes cotidianos e futuros  


Amanhece no Jardim Atlântico
E é difícil ver o sol
Impossível ver o mar
O bairro renasce azuis e vermelhos
Mais vivo como todo amanhecer
E indiferente ao medo e aos assaltos
Que povoaram suas ruas
Na noite anterior  


Amanhece no Jardim Atlântico
E não é o mesmo amanhecer sobre Olinda
O bairro não é a cidade
A cidade não é o bairro
E o dia poderá ser tão inútil
Quanto a festa de cores de nuvens de pássaros
Da beleza perdida deste amanhecer



(Jardim Atlântico, Olinda  / 
 6 de junho, 2006) 

sábado, 28 de novembro de 2015

UMA MULHER É MAIS





Uma mulher é mais
do que um corpo
uma música de arrepios
uma pintura de carícias
um jardim de sexo

Uma mulher é mais
do que uma função orgânica
o outro eu do homem
uma fantasia erótica
um pensamento carnal
uma vulva que fala

Uma mulher é mais
do que um pênis ao contrário
uma cabeça de nuvens
uma deusa de barro

Uma mulher é mais
do que um número humano
do que um drama vivo
uma tragédia em casa

Uma mulher é mais
do que um poema em flor
do que a inocênca que mente
e a falsidade adorável
que inventa a verdade

Uma mulher é mais
do que a palavra mulher
é mais do que o homem
apenas em palavra é

Uma mulher é mais
do que um sonho uma ilusão
é muito mais do que ela
na dádiva inteira do coração



Juareiz Correya  
(Recife, maio  / 2006) 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

BRILHO INTERIOR





meus olhos já não vêem direito
traços
           pontilhados
                               linhas do rosto
da cidade
da rua aberta das retinas
os sons matizados
as luzes grafadas
alfabetos da pele
códigos sensoriais
e as vias-lácteas
de intimidades e distâncias


meus olhos doem
um sol uma lua dias noites
que habito e desconheço
como se a tua presença
não estivesse no meu mundo
e desabitasse a memória
do corpo e da existência    


o que vive em ti é o meu olhar    



(Recife, abril / 2006) 

sábado, 5 de setembro de 2015

TEU CORAÇÃO





O que fazes com o meu coração ?
Ele é mais teu
do que o que carregas
no próprio peito.
Não ande no meu coração assim
como quem maltrata pisoteia esmaga
tudo o que alcança.
O meu coração é a tua morada.
Como podes destruir o que te protege
e é sempre o teu abrigo ?
Ama o meu coração que te ama
pelo amor do amor somente
e que é sangue do teu sangue
e só sente pulsar porque te sente.    





(Recife, fevereiro / 2006) 

domingo, 17 de maio de 2015

CADEIA DE TERCETOS




Dedicado a três poetas que foram prisioneiros : 
César Vallejo, Paulo Coelho 
e Marcelo Mário de Melo.  



Uma prisão
Não envergonha ninguém
Nem orgulha também.  


Nada é para sempre
Mas uma prisão
É um drama para toda a vida.


Você sai da prisão
Mas a prisão não sai nunca
De dentro de você.    



(Recife, fevereiro / 2006) 

sábado, 11 de abril de 2015

RECADO URGENTE PARA CHICO ESPINHARA CONVALESCENTE





Chico, meu pessimista  
por excelência,  
com sua licença 
renovo a notícia : 
a vida é ótima. 
E precisa de você ! 
do seu humor, 
que não é mau, 
da sua cara, 
que não é de pau, 
do seu movimento 
que não é em vão 
e de nenhuma geração, 
da sua poesia
otimista, como toda poesia, 
disfarçada de "pessimista". 
Precisamos de você 
na vida como ela é, 
E, companheiro, qualé ? 
Logo agora 
que temos um século 
inteiro pela frente 
você quer dar no pé ? 




(Recife, 17/dezembro/2005) 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

COMUNICADO SOBRE "A GUERRA DO PETRÓLEO"





O Presidente Bush
fala ao povo norte-americano
sobre os números da sua Guerra :
"Morreram 30 mil iraquianos
e 1.200 soldados do nosso País.
Só sairemos do Iraque
com a vitória definitiva
sobre os terroristas."


O Presidente Bush mente
(os números são muito maiores)
e não diz o que pensa
e deveria ainda ter dito :
"Só sairemos do Iraque
com o completo esvaziamento
dos tanques de petróleo
desse país miserável !"      





(Jardim Atlântico /
Olinda, dezembro 2005) 

sábado, 24 de janeiro de 2015

NÃO SE VIVE POR VIVER





O que é uma existência
Sem caminhos e luz
De dias passados
E não construídos
De amanhecer sem horizontes
E anoitecer sem nada ?


O que é um homem
Sem fantasia e sonho
Ou com a fantasia apenas
De ganhar dinheiro e aumentar lucros
E o sonho cotidiano seguro
De contabilizar os dias
Com o sangue da ganância
E o coração da sobrevivência ?


O que é uma vida
Sem uma perda
Uma aventura inútil
Um salto no escuro
Um suicídio amoroso
Uma história não vivida
Uma emoção despertada
Em qualquer gesto
Palavra ou sorte ?    





(Jardim Atlântico / Olinda, 
18 de agosto, 2005)