sábado, 21 de dezembro de 2013

HISTÓRIAS INCOMPLETAS





Por que as pessoas
Sem morte ou qualquer tragédia
Somem da vida da gente
E sumimos das suas vidas
Igualmente ?
De repente
Perdem-se endereços
Silenciam-se telefones
Deletam-se e-meios
Transportes desaparecem
Ninguém veicula ou transporta
Sua virtual presença
E as comunicações enterram-se num fosso
Interminável e sem mais história.  
As agendas apagam os dias
Os correios desprezam as horas
Cartas postais aerogramas telegramas
Se tornam pó sem o desenho de uma letra
Nem uma palavra se pronuncia
Na babel de lembranças e de nomes.
Nada mais existe
Entre as pessoas que só existiam
Antes e depois para elas mesmas
Que tinham a própria vida  girando
Em torno da outra vida.
E nada mais existe
Que não seja solidão e esquecimento
Um mundo perdido e desorbitado
Um coração sem encontros e sobressaltos
Um desencontro sem despedida
Uma desilusão desmedida      



(Olinda, maio 2005) 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O RECIFE NUM SOL DE INVERNO




ao poeta Marco Polo Guimarães 



O sol no meio da tarde
Não fere faca afiada de prata
Não sangra e incendeia
Como o inferno dos dias
No calor dos meses sem chuva.
É um sol assim assado
Sem brasa e brilho
Um raio X de luz medonha
Laser radioativo como vento
Voltagem elétrica sobre a cidade
De rostos e corpos nas avenidas
E ruas e pontes do centro do Recife
Como uma povoação de zumbis
Multidão morena sem cor
Legião de brancos calcários
Intensa e esquelética luz caiada
Nas peles sem palidez humana
Lavadas e descarnadas
Banho ácido sobre a nudez coletiva
Luz atômica letal desfigurando
O corpo da tarde da cidade.  


(Maio, 2005)



sábado, 12 de outubro de 2013

INTUIÇÃO





Os poetas
doutores e letrados
discutiam suas seculares questões :
a poesia é inspiração ?
a poesia é trabalho ?
a poesia é transpiração ?
a poesia é construção ?
tijolo mágico ?
isso ou aquilo ?


Um poeta simples
sem universidades tratados e dogmas
(e de poucas palavras)
disse apenas :
Poesia é Espírito...
E se foi
num raio de luz.



(Olinda, maio 2005) 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ASCENSO NO OCO DO MUNDO





para Maria de Lourdes Medeiros, a companheira. 




És nome de rua
Em Palmares, Recife, Natal e São Paulo.
Uma praça no Recife também.
Um colégio estadual,
Um edifício público,
Um arranha-céu de luxo em Boa Viagem...
E não tinhas, tua, sequer pelo BNH,
De chão medido e papel passado,
Uma casa própria onde morar...
Como dizia Mestre Vitalino, de Caruaru,
Não seria melhor uma casa no teu nome
Do que o teu nome numa rua ?



(Olinda, maio / 2005) 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O MAR NÃO É UMA CANÇÃO






dedicado a Liz Petrolini.



Para mim o mar só é belo
Na voz de Carlos Bengonzi
Em Torna a Sorrento.
Além dessa canção
Na pérola da carne
Dos peixes conhecidos à mesa.
Depois, é só uma terra movente,
Magma inútil e sem doçura.
Um mundo sem tamanho perdido
Nos braços continentais da América.




(Jardim Atlântico, Olinda, abril 2005) 

domingo, 30 de junho de 2013

HORA SEM SONHO





Escrevo no silêncio da noite
O que amanhece em meu coração
Escrevo palavras que não enternecem
Versos de uma música que não é canção.
Escrevo como um condenado
Preso pela minha vontade
Como um cidadão à margem
Sem identidade e sem cidade.    




(Jardim Atlântico, Olinda / março 2005) 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

NEM JARDIM NEM ATLÂNTICO





Quem mora no Jardim Atlântico
Mora em Olinda ?
Um bairro de uma cidade
Nem sempre é a cidade.
Em Olinda, o Jardim Atlântico
Não é para os olhos, não é desejo.
Balneário de casas caiadas sem azul
Jardim sem verde colorido de latidos
Apitos destroços idades perdidas e juventude sem flor
O seu mar é quase um rio azedo
E há uma beleza oca e perdida
Nessas ruas avenidas e praças
Onde já foi mata e terra frutífera.
O Jardim não floresce
E o Atlântico está morto
Como um peixe sem águas
Fluviais e oceânicas.



(Jardim Atlântico, Olinda, março / 2005) 

domingo, 21 de abril de 2013

LIMITES URBANOS





A insegurança bate à tua porta 
Como uma venda lotérica 
Um anúncio de jornal 
Ou um pedido de pão.

A rua te assalta 
Com postes acesos
À luz do dia 
E as casas não te encontram 
Portas não te abraçam 
Janelas não te vêem. 

Ônibus e carros buzinam 
Estragos desenfreados 
Sobre os nervos do teu medo. 

Estás só como ninguém
Crucificado na paisagem
Desaparecido na vertigem
Do passeio da tua casa à cidade
Sozinho como uma multidão cega 
Perdido no teu próprio sequestro
Sem resgates ou exigências 
Como um número que não conta 
Um nome que não existe.  



(Jardim Atlântico, Olinda,  março / 2005)

terça-feira, 26 de março de 2013

NÃO É MAIS TEMPO DE MONSTROS






"Não é mais tempo de homens partidos..."
     (T S. ELIOT, in "Os homens ocos")


Não é mais tempo
de homens partidos 
de homens fodidos 
sem valor e esperança. 
Não é mais tempo
de lamentar e negar 
de livros de Jó
de igrejas e templos 
abertos para a Alienação
e o infame Purgatório
dos que sonham viver 
e ainda não viveram. 

Não é mais tempo 
de homens calados
de trevas angústias 
de demônios diários 
do Direito do Estado
castrando todas as vidas 
sem escolhas e sem sorte 
numa ilusão lotérica 
de assalto a assalto 
a cidades e futuros. 

Não é mais tempo
de almas vendidas 
no balcão de negócios 
nas casas de câmbio 
no bancos nas câmaras
assembléias e ruas 
Palácios sem alvoradas 
Planaltos de lama 
e Brasílias vilipendiadas 
nos Estados sem governo
Casas Brancas e Rosadas 
todas de fachada 
mentiras abertas 
com a moeda mais vil
só Dinheiro abjeto. 

Não é mais tempo
de Solidão
do homem morto 
antes da morte 
da inexistência 
da Alegria 
da multidão de assassinos 
e suicidas trucidando
o coração da Vida.    

Não é mais tempo
de Desamor 
monstro apocalíptico
verdade abortada 
nas mulheres e nos homens 
de tristezas e desertos 
doenças imaginárias 
e estações da Miséria. 

É tempo de luz 
Da palavra mais humana
- sem Dinheiro Alienação Desamor.  

É tempo de paz
nos corações nascidos
de vida eterna 
nos corações sem vida
da mais pura Alegria 
dos amores vividos 
da Humanidade sem fim
da eternidade dos dias
Da verdade verdadeira 
da criação da Poesia.  





(Olinda, amanhecer do dia
              9 / março / 2005)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

RUA DO HOSPÍCIO, BOA VISTA DO RECIFE





Quando contemplas a rua 
contemplas a rua
como uma banalíssima coisa tua. 
As caras informes 
o circo passante 
de todos os dias 
as mesmíssimas vias diárias 
do povoado pó da cidade 
real ou imaginária. 
Contemplas a rua 
do Viena onde estás 
e talvez a rua te veja
                              nessa mesa.
Já mudaste de mesa 
e viste o outro lado da rua ?
Além da igreja 
no espaço onde sempre avistas um teatro 
em lugar do parque existe a praça 
com nome e identidade oficial. 
E aquele edifício de 1909
(jamais visto antes)
um Macena's Bar indecifrável 
lanchonete onde Clarice Lispector 
nunca menina lanchou 
nem viu estrelas  ?




(sexta à tarde, do Viena,
Rua do Hospício, Recife,
dia 11/02/2005)

sábado, 19 de janeiro de 2013

A PRIMEIRA MULHER





A primeira mulher não era Eva.
Ou divina. Nem era uma deusa terrena.
Não tinha beleza nenhuma.,
Revelada à primeira vista.
Parecia com Hilda, mas não era Hilda. 
E nem nome tinha. 
Noite de Natal ela fez nascer 
do amoroso corpo da amorosa carne 
de dentro dela como um fruto da terra 
amadurecendo à margem do Una 
puro e revelado
um homem nascido sem mistério
e anunciação 
apenas um homem inaugural 
com o seu sexo alegrando a mulher 
e sua revelação de espanto :
"Você será um grande homem."



(Olinda, fevereiro de 2005)