quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A POSSE DAS PALAVRAS





As palavras não me deixam dormir
Entram no quarto e vêm para a cama
Encorpadas como uma fêmea
- A poesia não é uma mulher ? -
Erguem meu corpo como se me amparassem
E pedem que eu penetre nelas
Com as suas pernas abertas
E como se a noite fosse um sexo estelar
Desorbitando a minha dor
Com alegria e prazer.


As palavras não me deixam dormir
Até que eu me esgote
Ou refaça em mim
A energia vital
Como uma eternidade sem morte.    




(Jardim Atlântico, Olinda / 
 25 de novembro 2006) 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

GOSTO DE GOSTAR





"Gosto de gostar gostando..." 
                      (SOLANO TRINDADE) 




Gosto do que sou
gosto do que tenho
da palavra certa
de arte e engenho
da mulher companheira,
cúmplice, parceira,
de quem gosta de mim
homem ou mulher
solidário e de fé
do princípio ao fim
dos céus da cidade
dos campos da rua
dos horizontes da casa
do Estado liberto
do País mais fraterno
da Terra em paz
de prosa & poesia
da melhor qualistria
da vida que vivo
do sonho que sonho
do vinho que bebo
do peixe e do pão
de gostar gostando
do teu coração.




(Jardim Atlântico, 
 Olinda, novembro 2006)  

terça-feira, 27 de setembro de 2016

UM DOIDIM DE ROSA






Dedicado a Sônia, 
uma mineira que conheci em São Paulo. 




Ele me encontrou no meio da estrada :
Um caminho perdido entre a cidade
E aquele mundaréu de lugar...
As palavras saíam da boca
Do jeito que ele andava
(Atropelada fala).
E chegamos então à casa,
No entranhado do mato,
Uma casa que não era nada,
E dentro dela a mulher e a filha.
Comi a comida pouca
E tão generosas
Bebi a bebida
Água-açúcar-ardente-doce
Beberagem que não tinha na terra
E não chovia do céu
E eu comigo acreditei
Que nada daquilo não existia
(Como se fosse uma fantasia)
E todo inteiro ele tivesse saído
Das veredas de uma página
Do livro de Guimarães Rosa.  




(Jardim Atlântico, Olinda / 
26 de outubro 2006) 

sábado, 16 de julho de 2016

DUAL






Somos 
Um só


Corpo
Alma  


Carne 
Sangue  


Falo 
Vulva  


Vinho 
Pão  


Terra 
Céu 


Dois 
Em um 





(Jardim Atlântico, Olinda /
setembro 2006) 




quarta-feira, 22 de junho de 2016

UMA CIDADE É UM POEMA






Para os amigos 
Valter Portela dos Santos 
e Leonilda Silva Rocha  



Uma cidade se faz de memória
E não de esquecimento


Uma cidade se faz de alegria
E não de tormento


Uma cidade se faz de humaníssima gente
E não de numerosas pessoas

Uma cidade se faz de poesia
Para viver eternamente.




Olinda / Jardim Atlântico, 
21 de julho 2006 
   

domingo, 10 de abril de 2016

DIA DE CHUVA






Faltam poesia e verdade 
nos serviços de meteorologia 
e nas comunicações 
das moças do tempo 
no rádio e na televisão.   
Todos os dias  
- masculinos por natureza  - 
têm sua beleza, 
como todas as fêmeas.  
Como se pode dizer 
(e isso dizem sempre) 
que um dia de chuva 
renovando e fecundando 
todo o útero da Terra  
é um dia de tempo ruim 
e feio ? 



(Olinda, julho / 2006) 




domingo, 20 de março de 2016

A PERFEIÇÃO HUMANA





"Criou Deus, pois, o homem, 
à sua imagem, 
à imagem de Deus o criou..."
(GÊNESIS, cap. 1, vers. 27) 



Eu sou perfeito
Em comunhão e harmonia
Em paz e alegria
Com tudo o que é
Essencial em mim
Sem mais nem menos
Sem tirar nem pôr,
Cada um em seu lugar :
A companheira amada
E que me faz amado;
O filho nascido,
Meu eu procriado;
A família unida,
Nunca jamais vencida;
O amigo verdadeiro,
De todos, o primeiro;
A cidade onde vivo,
Meu lar, meu abrigo;
O trabalho diário,
Meu pão, meu salário;
A imagem de Deus
De humana esperança
Afirmando que eu
Sou sua semelhança.  



Juareiz Correya  
(Olinda, julho / 2006) 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ABRO O CORAÇÃO





Abro o coração
sem testamentos leis e bíblias
mas com a fé que remove montanhas
e degela distâncias silêncios e dor  


Abro o coração
corpo autônomo dentro do meu corpo
fonte nuclear de emoções e dádivas
terra de caminhos luminosos e memórias inaugurais  


Abro o coração
como a manhã na festa dos dias
a música perfeita de uma feliz cidade
a poesia humana de Deus    


Abro o coração
e sem amargura rancor e histórias mortas
crio de novo a vida fruto das minhas mãos
e da paz e alegria natural de viver  


Abro o coração
alma da minha carne razão do meu querer
como um sexo nascente e puro
gênese do mundo e da terrena existência  


Abro o coração
com as palavras mais doces e mais íntimas
para a mulher companheira e amorosa
me fazendo seu e um homem completo e melhor    



(Olinda, julho / 2006) 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

EM NOME DO SANGUE






À memória de José Benedito Correia, meu pai; 
e de Maria do Carmo Barbosa Correia, minha mãe. 



Meus pais cumpriram seu destino
E eu nasci como parte deles.
Viveram o seu tempo
Completaram o ciclo de suas vidas
E não apenas morreram.
Eles foram enterrados
Em um túmulo de terra fria ou quente
- de acordo com os ventos dos dias
e as estações dos anos -
No Parque das Palmeiras dos Palmares.
Eles estão vivos
Em cada milímetro
Da memória do meu sangue.
E vivem para sempre
Em cada palavra que pronuncio
Em cada verso que escrevo
Nas estrofes e no poema inteiro
Psicografado pelo coração
Perpetuando os seus nomes.    



(Olinda, 8 / julho / 2006)