sábado, 27 de dezembro de 2014

LIÇÃO DE POESIA





Aprendi com os poetas que a Poesia
não é a Língua
dos gramáticos
dos doutores
dos juízes
dos políticos
dos comandantes
dos presidentes
das Redações Tratados Leis e Constituições.    


Aprendi com os poetas que a Poesia
é a Linguagem
dos párias e excluídos
das putas dos malditos e dos condenados
dos injustiçados e dos sacrificados
dos suicidas e dos inventores
dos santos e dos dementes
do Amor e da Alegria  
do Sangue e do Coração
do Espírito e da Luz.    





(Olinda, Jardim Atlântico / 
  julho 2005) 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

INVEJA





Não posso me orgulhar
de santidade
de coração mais puro
- provador na dor no desengano
  nos amores vividos -
da mente aberta e livre
sem limites e sem fronteiras.  
Tenho dentro de mim
o bicho da inveja
(não é a inveja
dos grandes poetas
dos nomes eternizados
nas Letras e nas Artes
milhões de vezes
melhores do que eu),
essa espécie de doença
que corrói e mata
e golpeia sem medida
todo coração.  
Invejo as mãos e a habilidade
de ciência agrícola
do meu tio Manuel  
e do negro velho Cosme
que sabem namorar a terra
germinar sementes
 florescê-las e frutificá-las.    




(Jardim Atlântico, Olinda /
 junho 2005)  


terça-feira, 29 de julho de 2014

UMA MULHER MADURA





Uma mulher madura
É uma mulher inteira.
Mais certa. Mais ela mesma.
Não é fruta, só macia carne,
Promessa de fantasia;
É um corpo na medida
De vida mais verdadeira.
Uma mulher madura
Não olha apenas, vê;
Não fala apenas, diz ;
Não nega nunca um sim
E sabe sempre ser.  
Uma mulher madura
Não quer ser a ideal
Ou a qualquer mulher igual :
Sabe que é essencial.
Uma mulher madura
Completa o homem no mundo
E quando o corpo desnuda
Dá alma à própria Vida
E é o princípio de tudo.


(Olinda, junho 2005) 

terça-feira, 22 de abril de 2014

ATLÂNTICA





Atlântica somava
Almas e corpos
Vidas e veredas
Arquiteturas e floras
Discursos e matemáticas
Sonhos e neuroses
Gêneses rurbanas.

Subtraía Atlântica
Nomes e histórias
Cartas e lápides
Amores vividos
Terrores sofridos
Ilusões de futuro
Passado sem glória.

Dividia Atlântica
Ruas e palmares
Misérias e bairros
Guerras diárias
Manhãs de céu
Tardes purgatórias
Noites de inferno.

Atlântica multiplicava
Tristezas e assaltos
Natais e mortes
Dinheiros podres
Riquezas abjetas
Tragédias desumanas
Apocalipses bíblicos.  



Juareiz Correya  

(Olinda, 31/maio/2005)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A JUVENTUDE MORRE ?






Às vidas de Antonio Olívio, 
Israel Semente, Tony Pereira 
e Maria Tuê. 



A vida não precisa de mortes.
A vida precisa
de estradas longas e sinuosas
que nos levem para Ribeirão
até a presença de Antonio Olívio
e da sua poesia sem idade e sem tempo.
Precisa de paus pedras e pereiras
das águas profundas de Itamaracá
devolvendo à terra
o violão do corpo do seu cantor.
Precisa de bebidas fumos e sementes
não proibidas
com a festa diária
das percussões e pulsações
da música de Israel.  
E precisa de uma mulher
ao mesmo tempo
etérea e terrena
como a identidade múltipla
de criação e criatura
pintura de Maria C.
poesia de Maria Tuê.  




(Olinda, maio / 2005) 



domingo, 5 de janeiro de 2014

OS CÃES LADRAM





"Os cães ladram e a caravana passa."
                                      (Ditado árabe)


As pessoas negativas
não contam.
Elas existem mas não têm
significado verdadeiro.
Existem na passagem
                 paisagem
                 das nossas vidas
como uma pedra um pau torto
um desenho informe e medonho
uma erva daninha um estorvo.
Existem para provar
que a nossa existência
é melhor e maior do que tudo
o que conhecemos e vivemos
quando elas surgem e sujam
nossos caminhos.  




(Olinda, maio / 2005)