sábado, 2 de junho de 2018

DIA GENTE






Os dias são de carne e osso. 
Figuras desagradáveis  
Vazias inexistentes 
Paisagem sem vida 
Ou uma pessoa tão  luminosa 
Que desfaz num gesto 
A doída desumanidade da semana. 



Quando a gente se ama
Uma noite apenas 
Vale todos os dias 
Do mês perdido 
E da agonia das horas 
Que move o calendário cotidiano.   



(Casa Amarela / Recife, 
janeiro 2008) 

quinta-feira, 19 de abril de 2018

A OUTRA PAISAGEM DO BAIRRO








Essas casas casarões 
De dois três quatro e tantos mais andares  
Edifícios de apartamentos  
Prédios querendo arranhar o céu 
São mais do que algo sólido no ar.   
E abrem portas e janelas 
Para o infinito ? 
Dão asas quando você caminha 
Nos labirintos dos corredores e salas  
E te transportam para outros mundos ? 
Desse endereço arquitetado 
Sobre o chão da rua 
Ainda podes ser encontrado 
Por uma correspondência de Deus ? 
Todos os dias tu sonhas 
Que edificaste a tua vida 
Acima do bem e do mal.  
E para os outros viventes 
Na verdade o teu edifício  
Apenas altera a paisagem local.  




(Recife, janeiro / 2008) 

sábado, 10 de março de 2018

VERBO DÁDIVA






Te dou minha palavra  
De amor somente  
E sei que sou 
Teu amoroso amante 


Te dou meu poema 
De coração aberto 
E vejo que escrevo 
Apenas o teu nome  


Te dou minha vida  
De dias como século 
E sinto que renasço 
Na luz do teu prazer     




(Casa Amarela / Recife, 
16 de novembro 2007) 

domingo, 30 de julho de 2017

CRIADOR E CRIATURA







                                                                                    para Roberta Malta 



o poema tem corpo e alma 
cidadania e identidade  
(embora seja de outro mundo) 
uma voz de pronúncia certa 
palavras exatas sem medida 
a verdade no coração 
ardendo o seu sangue 
e o olhar de um instante 
eternizando os séculos  
sabe o que diz por sentir 
que o amor não é uma ciência  
e a vida é só passagem 
da humanidade para a luz.  



(casa amarela, recife / 
15 de novembro 2007) 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

AGENDA







há dias assim 
cara de aeroporto  
jeito estação de trem 
semblante metrô 
aspecto rodoviária  


existem horas  
modo lunar  
pintura sem tempo 
desenho estrela  
grão de sol 


e instantes sem fim 
cantiga mulher  
corpo etéreo 
alma concreta  
carne de luz 




(Casa Amarela, 
Recife / novembro 2007) 

domingo, 15 de janeiro de 2017

CONVERSA DIANTE DO ESPELHO





Todos sabem disso, poeta :
Que os pais os irmãos
A mulher os filhos
A família é importante;
Que os amigos,
Raros e essenciais,
São importantes;
E até os simples conhecidos
Das ruas do bairro da cidade
Têm sua importância em tua vida.
Mas ninguém sabe
Que no silêncio e na solidão
Do verso inútil do teu poema
E da tua poesia sempre inacabada
Vive a tua humanidade inteira,
Vista e revista lida e relida
Sem a mais mínima importância
Que o mundo lhe possa dar.
E que a tua existência
- Sim, tu és a importância
Do teu mundo, e disto ninguém sabe -
Nada importaria e não existiria.



(Jardim Atlântico, Olinda / 
 novembro 2006) 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A POSSE DAS PALAVRAS





As palavras não me deixam dormir
Entram no quarto e vêm para a cama
Encorpadas como uma fêmea
- A poesia não é uma mulher ? -
Erguem meu corpo como se me amparassem
E pedem que eu penetre nelas
Com as suas pernas abertas
E como se a noite fosse um sexo estelar
Desorbitando a minha dor
Com alegria e prazer.


As palavras não me deixam dormir
Até que eu me esgote
Ou refaça em mim
A energia vital
Como uma eternidade sem morte.    




(Jardim Atlântico, Olinda / 
 25 de novembro 2006)