terça-feira, 27 de novembro de 2018

EU TE SONHO. TU ME SONHAS ?






Quando te sonho 
Tu me sonhas também ? 
Entro no teu sonho 
Como tu entras no meu  
E sou tão real de repente vivo 
Me adensando na tua cama  
Como um animal que tu és  
Me possuindo e sendo minha ? 
Estás distante de mim  
Como eu nunca estive tão distante de ti 
E apareces carnal  
Como se o sonho transportasse 
E transformasse o meu corpo  
Em tuas mãos em tua dádiva  
E é assim que eu ilumino  
O teu sonho e desintegro 
O teu sono ? 
Eu me faço presente em tua vida  
Um bicho quente e sanguíneo 
Que tocas acaricias e te alimenta  
Assim como esse prazer concreto 
Que a tua imagem viaja dentro de mim 
Para além da noite e do sonho interminável ? 




(Casa Amarela, Recife, 2008) 

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

DO PRESENTE PARA O PASSADO





A vida era besta, Drummond, 
no mundo 
das pequenas cidades do interior. 
E hoje 
no universo das grandes cidades 
- via ruas populosas avenidas nervosas  
invenções urbanas desenfreadas  
VIA INTERNET  
tudo plugado e acessado      
o futuro nas mãos digitalizado, 
a vida, poeta, acredite: 
é muito mais besta ainda !    





(Recife, maio 2008) 

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

SEM AMANHÃ







Até amanhã, 
ela disse ao namorado, 
e a alegria do sorriso 
era o seu corpo inteiro.   
Quando amanheceu 
a notícia da sua morte 
era o que havia 
de mais triste 
e verdadeiro.   





(Casa Amarela, Recife / 
maio 2008) 







quarta-feira, 4 de julho de 2018

ILHA DE SANTO AMARO






Edifícios-fantasmas habitam 
o bairro de Santo Amaro
- um campo de pecados 
como um cemitério a céu aberto.   
Sem ar e luz  
as ruas largas se estreitam 
o horizonte se perde 
como se o Recife não tivesse 
um jeito de ser suburbano.  
E o bairro se torna mais ilha 
no arquipélago da cidade.   





(Santo Amaro, Recife / 
fevereiro 2008) 

sábado, 2 de junho de 2018

DIA GENTE






Os dias são de carne e osso. 
Figuras desagradáveis  
Vazias inexistentes 
Paisagem sem vida 
Ou uma pessoa tão  luminosa 
Que desfaz num gesto 
A doída desumanidade da semana. 



Quando a gente se ama
Uma noite apenas 
Vale todos os dias 
Do mês perdido 
E da agonia das horas 
Que move o calendário cotidiano.   



(Casa Amarela / Recife, 
janeiro 2008) 

quinta-feira, 19 de abril de 2018

A OUTRA PAISAGEM DO BAIRRO








Essas casas casarões 
De dois três quatro e tantos mais andares  
Edifícios de apartamentos  
Prédios querendo arranhar o céu 
São mais do que algo sólido no ar.   
E abrem portas e janelas 
Para o infinito ? 
Dão asas quando você caminha 
Nos labirintos dos corredores e salas  
E te transportam para outros mundos ? 
Desse endereço arquitetado 
Sobre o chão da rua 
Ainda podes ser encontrado 
Por uma correspondência de Deus ? 
Todos os dias tu sonhas 
Que edificaste a tua vida 
Acima do bem e do mal.  
E para os outros viventes 
Na verdade o teu edifício  
Apenas altera a paisagem local.  




(Recife, janeiro / 2008) 

sábado, 10 de março de 2018

VERBO DÁDIVA






Te dou minha palavra  
De amor somente  
E sei que sou 
Teu amoroso amante 


Te dou meu poema 
De coração aberto 
E vejo que escrevo 
Apenas o teu nome  


Te dou minha vida  
De dias como século 
E sinto que renasço 
Na luz do teu prazer     




(Casa Amarela / Recife, 
16 de novembro 2007)